

07.07.26 - 23.08.26
Cinemateca Capitólio
Terça a domingo, 14h30 às 19h
Exposição individual de Alex Domingues
com curadoria de Cattani-Klamt

Vídeo de Apresentação da Exposição
Noite de Temporal
Uma noite de temporal em Porto Alegre, até o início deste século, era uma sucessão de desconfortos banais: ruas alagadas, sinaleiras inoperantes, animais assustados, galhos caídos ou monótonas goteiras. Uma noite de temporal, agora, é um arquétipo.
A arquitetura dos arquétipos é anterior às palavras e aos sonhos (talvez mesmo ao humano): são as fundações coletivas nas quais organizamos nossos pensamentos, emoções e símbolos. Um arquétipo está fora do tempo, como se fosse uma anunciação e uma lembrança em um átimo, e nos permite tornar coisas concretas — como uma árvore, um touro ou uma tempestade — em imaterialidades vivas que sussurram em nossos ouvidos.
Então, uma noite de temporal se torna uma fita de Möbius, onde as margens entre o dentro e o fora se entrelaçam. O fora da chuva torrencial, dos raios imoderados, das árvores arrancadas, dos ventos e da inundação se torna a identidade íntima e insondável de quem somos, signo de nossa personalidade; mas também de nosso Zeitgeist, que nos modela e é sempre inapreensível. Uma noite de temporal ocorre no presente — e nada é mais eficiente para nos trazer à superfície áspera do presente do que o medo —, mas também é metonímia de um futuro das mudanças climáticas: o primeiro futuro construído exclusivamente pelos homens e hábil a destruir a si mesmo.
Em Noite de Temporal, de Alex Domingues, há um leitmotiv (ou um ritornelo) que atormenta o criador: o pato-coelho. Menos do que uma imagem, é a metáfora da organização de nosso cérebro (e, por consequência, de nossa realidade). A união de animais opostos: o coelho, criatura de hábitos noturnos que frequenta o submundo significa astúcia, aventura; o pato, de hábitos diurnos, que desliza pela superfície (mas também pelo ar), representa a lealdade e a vida pacata. A figura do pato-coelho opõe sonho e real, inconsciente e consciente, e as próprias contradições da nossa percepção.
Os dez filmes de Noite de Temporal são como uma boneca russa, círculos concêntricos de uma gota que rompe a superfície do real, como se cada fragmento de uma única noite, gradualmente, se infiltrasse no outro. Em uma noite que se repetirá centenas de vezes, até que já não saibamos se o temporal anuncia o mundo por vir ou se apenas nos devolve, com violência, aquilo que sempre esteve em nós.
Cattani-Klamt, curadores
Um filme fragmentado
em 10 telas

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Bruno Krieger
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