
"O FUNDO DO PULMÃO"
Exposição individual de Alex Domingues
com curadoria de Beatriz Martini
29.09.2026 - 01.11.2026
Galeria Ecarta, Porto Alegre/RS
Visitação de terça a domingo, das 10h às 18h.
"O Fundo do Pulmão" constrói no espaço expositivo uma zona de suspensão, tomando como eixo central a constante repetição do primeiro ato da vida humana: o respirar. Por meio de uma videoinstalação em looping contínuo, a exposição rompe com a lógica linear do tempo para engajar o visitante em um estado de estranhamento.
Três vídeos projetados sobre algodão cru mostram figuras sem olhos respirando infinitamente, evidenciando apenas as partes do corpo envolvidas no ato de respirar. Em um display central, um texto narra o processo respiratório como uma inevitável contagem em direção à morte, trazendo à tona a sensação de que, na inevitável passagem do tempo, nada retorna; nem mesmo o nosso ar exalado.
O FUNDO DO PULMÃO
por Beatriz Martini
Não é raro que as palavras “passado, presente e futuro” causem angústia ou algum pânico. O tempo, na nossa concepção, se organiza de maneira espiral e sobreposta. Não há nenhum passado, sequer um presente ou futuro, tudo o que existe como “tempo” se mescla nessas figuras ou “personas” que organizam e tornam visível, para o ser humano, a passagem do tempo. O hoje não acontece sem o ontem e, principalmente, sem o desejo sobre o que virá amanhã. A memória do que já foi e o desejo por inventar um futuro é o que materializa o tempo criando os dias, semanas, meses e anos de humanidade. O Fundo do Pulmão, terceira exposição individual de Alex Domingues, brinca com três criaturas míticas, sem rosto, fruto de um sonho do artista sobre a passagem do tempo. As figuras tecem sua sorte e a de quem visita a mostra.
Diferentes culturas se desenvolveram em torno do tema do tempo, criando histórias sobre três criaturas responsáveis pelo destino de cada indivíduo. Uma dessas elaborações é a concepção grega através das Gréias e as Moiras, dois trios de criaturas que, juntas, decidem ou então lêem o destino dos que as procuram.
As primeiras, Graeae, irmãs que compartilhavam um único olho e um único dente. Elas guardavam o caminho para as Górgonas, certa vez tendo Perseu como o ladrão de seu olho, para que o herói pudesse lutar pelo seu próprio destino, mas essa é outra história. As segundas, então, as Moiras: Cloto, Láquesis e Átropos, são seres que tecem, avaliam, medem e cortam o fio da vida de todos os mortais e também dos deuses. A primeira é a fiandeira, responsável pelo nascimento dos seres, ela fala de esperança, desejo e sonho; a segunda é responsável pelo desenvolvimento da vida, sorteando o comprimento de cada fio e, portanto, a duração da vida e o destino de todos, ela fala de propósito. A última, no entanto, é a mais temida: inevitável, a responsável pela tesoura decide quando ocorrerá o último respiro de vida. Átropos decide quando o pulmão deixará de receber o ar e distribuí-lo pelo corpo.
Curiosamente, também é grego o nome da doença que acomete 10% da população brasileira ao ameaçar sua integridade respiratória: a asma, do grego, asthma (ἅσθμα), condição com a qual o artista lida desde a infância.
Seremos nós, humanos, capazes de influenciar a decisão das Moiras? Em O Fundo do Pulmão te convidamos a desafiar a própria capacidade respiratória, desafiar a força e a dominância do ar sobre os nossos corpos. O trio de criaturas indecifráveis nos intimida, quer que pensemos sobre o ato aparentemente natural de respirar, tornando-o difícil, antinatural e muito pesado. Isso é incômodo ao espectador. O oráculo te pergunta se sabes reter o oxigênio por mais tempo, se tu pensas sobre o ato de respirar, se o fazes conscientemente ou se seus pulmões são apenas um instrumento da natureza como qualquer outro.
Aqui, o tempo passa de uma maneira mais sútil, o início e o fim da performance se mesclam através de looping, um método comum ao artista, que continuamente pesquisa o tempo como um elemento artístico. Neste conjunto de videoperformances me encontro como curadora e também como intérprete. Contribuo com o simbólico através das palavras e também através do corpo: interpreto as figuras que apareceram ao artista em um sonho de anos atrás para que, através de mim, elas possam emergir.
Beatriz Martini
Curadora e intérprete
Exposição selecionada
no Projeto Potência 2026
Isadora Müller
Felipe Quevedo
Fernando Toller
Natália Zambon
Vídeos "Excesso de ar"
Produção Executiva
Montagem
Direção de Fotografia
Desenho de Som




